Paralisaçãobetboo 942caminhoneiros é um mistobetboo 942greve e locaute, diz sociólogo do trabalho:betboo 942

  • Camilla Veras Mota
  • Da BBC Brasilbetboo 942São Paulo
Grevistasbetboo 942São Paulo

Crédito, AFP/Getty Images

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'É preciso depois, ao estudar esse movimento, ver o que ébetboo 942fato locaute patronal e o que é um grito do caminhoneiro que não está aguentando maisbetboo 942situação', ressalta Antunes

betboo 942 A atual paralisação no transporte rodoviário brasileiro é um momento que ilustra como, no setor, os interessesbetboo 942trabalhadores e da empresas podem se alinhar.

No momentobetboo 942que uma crise afeta simultaneamente o faturamentobetboo 942transportadoras e a rendabetboo 942trabalhadores autônomos, demandas como o reajuste no preço do frete e a redução nos valores dos combustíveis podem facilmente se tornar pauta comum das duas partes.

Ao lado da fragilidade política do governo, essa particularidade explica por que, na avaliação do sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, professor do IFCH/Unicamp, os cinco diasbetboo 942paralisações que tomaram praticamente todos os Estados do país são uma misturabetboo 942greve e locaute (quando há influência ou apoio das empresas).

Na quinta-feira, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, chegou a afirmar que há indíciosbetboo 942locaute. A Polícia Federal anunciou o iníciobetboo 942uma investigação sobre a possível participaçãobetboo 942empresas na paralisação.

A situação não é exclusiva do Brasil: aconteceu nos Estados Unidos nos anos 1970, quando a crise do petróleo fez explodirem os preços dos combustíveis, e no Chile, na mesma década, no movimento que culminou com a derrubada do governobetboo 942Salvador Allende, exemplifica o especialista, que foi professor visitante na Universidade Ca'Foscari, na Itália, e na Universidadebetboo 942Sussex, na Inglaterra.

Estrutura peculiar

Nas últimas décadas, a automatização dos sistemas produtivos e a tendênciabetboo 942avanço da terceirização tirou poderbetboo 942barganhabetboo 942muitas categorias tradicionalmente organizadas, como a dos bancários. Os caminhoneiros, contudo, não passaram pelo mesmo processobetboo 942"mudança profunda" que diminuiu o poder dos movimentos sindicais.

"Eles vivem uma situação ainda muito parecida com a que viviambetboo 942décadas anteriores - ou eu tenho caminhão e preciso mantê-lo, ou sou empregadobetboo 942uma empresa que tem caminhão e presta serviços."

Professor Ricardo Antunesbetboo 942debate na Escola do Ministério Público da União, no dia 21betboo 942maiobetboo 9422018

Crédito, Graziane Madureira Baptista

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Influência ou apoio das empresas a paralisaçõesbetboo 942caminhoneiros marcam setorbetboo 942transportesbetboo 942diversos países, afirma o sociólogo

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O Brasil tem ainda uma especificidade: é mais dependente do modal rodoviário.

"Hoje, nós somos prisioneiros disso", diz o especialista, que publica ainda neste ano o livro O Privilégio da Servidão - O novo proletariadobetboo 942serviços da era digital, pela editora Boitempo.

A seguir, trechos da entrevista concedida à BBC Brasil.

betboo 942 BBC Brasil - O que a greve tem mostrado sobre a formabetboo 942organização da categoria dos caminhoneiros?

betboo 942 Ricardo Antunes - Em geral, essa é uma categoria que não tem uma solidariedadebetboo 942classe construída, sólida. Muitas vezes, os caminhoneiros são os donos do caminhão e, por isso, frequentemente competem uns com os outros - mas se unem quando têmbetboo 942negociar o preço do seu trabalho (o custo do frete).

Ela é também muito heterogênea. Não tem entidade central - uma espéciebetboo 942'Central Única dos Caminhoneiros' -, mas várias associações, e constrói suas greves muito pela via digital (Facebook e WhatsApp) e pelo contato nas estradas.

Os caminhoneiros formam uma categoria muito diferente, que tem experiênciabetboo 942grevesbetboo 942que foram um instrumental importante das classes patronais - usadas para desestruturar, por exemplo, o governobetboo 942Salvador Allende no Chile.

Grevistas

Crédito, Reuters

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'Estamos vivendo um processobetboo 942que há locaute patronal - um momentobetboo 942pressionar um governo 'em fimbetboo 942feira'"

Em 1972, quando o país vivia um momentobetboo 942crise, o locaute foi usado para criar um climabetboo 942instabilidade social e derrubar Allende.

Essa é uma categoria,betboo 942geral, muito despolitizada e, como depende do seu trabalho para sobreviver, seus interesses (como a redução do preço do combustível e aumento do preço do frete) estão muitas vezes ligados aos das empresas.

betboo 942 BBC Brasil - O senhor vê indíciosbetboo 942locaute nessa greve?

betboo 942 Antunes - Eu vejo, sim. Eu vejo um pouco dos dois. Como é uma greve quebetboo 942poucos dias se tornou expressiva, e as empresas têm algo como 55% do controle desse transporte (frete rodoviário), muitas dessas paralisações podem ser decisão empresarial.

O restante, os 45%betboo 942caminhoneiros autônomos, são muito afetados pelo contextobetboo 942recessão, que diminui a circulaçãobetboo 942mercadorias. Eles já estavam ganhando muito pouco, e o preço do combustível explodiu.

Acredito que há uma espéciebetboo 942confluência nesse momento entre os interessesbetboo 942empresas e caminhoneiros.

É importante lembrar que esse é um momentobetboo 942crise profunda no Brasil, e que essa é uma categoria que, quando se olha na história - menos na do Brasil, mais nabetboo 942países como os Estados Unidos, Alemanha e, mais recentemente, o Chile -, muito suscetível a uma influência patronal.

O donobetboo 942um pequeno caminhão, quando presta serviço para uma grande empresa, ele é, ao mesmo tempo, um pequeno proprietáriobetboo 942um bembetboo 942produção importante e uma espéciebetboo 942'proletário dos transportes'. Ele oscila entre esses dois.

betboo 942 BBC Brasil - Essa confluência aparece nas greves que vimosbetboo 942anos anteriores,betboo 9422015 e 2013, por exemplo?

betboo 942 Antunes - Não. Tanto é que esta foi muito rápida, muito expressiva. No começo da semana ela deu seus primeiros sinais e,betboo 942dois ou três dias, ela generalizou.

Nós precisamos estudar para entender exatamente o que está acontecendo. Pelo que estamos vendo hoje, ela é mais ampla e mais forte que as demais.

Primeiro, porque você tem um quadro críticobetboo 942recessão, que afeta o caminhoneiro e a empresa. Nós estamos vivendo um processobetboo 942que há locaute patronal - um momentobetboo 942pressionar um governo 'em fimbetboo 942feira' - e, ao mesmo tempo, uma grevebetboo 942caminhoneiros independentes, que não estão conseguindo se manter.

É preciso depois, ao estudar esse movimento, ver o que ébetboo 942fato locaute patronal e o que é um grito do caminhoneiro que não está aguentando maisbetboo 942situação.

betboo 942 BBC Brasil - Como o senhor vê o sindicalismo hoje, diante do impacto forte desse tipobetboo 942paralisação, feita sem organização central, e a mobilizaçãobetboo 942categorias tradicionais, como bancários e metalúrgicos?

betboo 942 Antunes - Não quer dizer que esses outros setores não façam greves. Eles ainda têm importância, não é que eles desapareceram. Nós vamos ter paralisações bancárias, metalúrgicas,betboo 942professores, porque o momento ébetboo 942crise.

No caso dos caminhoneiros, eles ganham força quando há a confluência entre interesse das empresas e dos trabalhadores, ainda que não sejam necessariamente os mesmos. Isto ocorrebetboo 942um quadrobetboo 942que a fragilidade do governo é absoluta, que cria uma suscetibilidade maior a essas pressões.

O Brasil tem ainda uma especificidade, pelo desmonte dos sistemas ferroviário e fluvial, que poderiam ser muito mais intensamente utilizados, e que fizeram com que o transporte rodoviário fosse o principal mecanismo do circuito das mercadorias.

A nossa indústria automobilística pós-1955 sepultoubetboo 942grande medida um belo sistema ferroviário que nós tínhamos no século 19, que era um pouco inspirado por uma certa presença inglesa no período aqui no Brasil, e que foi pouco a pouco sendo dilapidado para que a indústria automobilística se consolidasse.

Hoje, nós somos prisioneiros disso.

Caminhoneiros bloqueiam BR-262betboo 942Minas Gerais

Crédito, AFP/Getty Images

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Desestruturação do sistema ferroviário após os anos 1950 deixou país mais dependente do modal rodoviário

Mas, seguramente, há uma perdabetboo 942força do movimento sindical. Esse é um fenômeno mundial. O capitalismo mudou profundamente seu modobetboo 942vigência nas últimas quatro ou cinco décadas (com avanço da automação dos processos produtivos e da terceirização, por exemplo).

Os bancáriosbetboo 942hoje são totalmente diferentes daqueles que fizeram grevebetboo 9421985, que foi muito importante.

O mesmo processobetboo 942mudança profunda não aconteceu com os caminhoneiros. Eles vivem uma situação ainda muito parecida com a que viviambetboo 942décadas anteriores - ou eu tenho caminhão e preciso mantê-lo, ou sou empregadobetboo 942uma empresa que tem caminhão e presta serviços.

O caminhão pode ser mais moderno hoje, mas ele depende basicamente do sistema rodoviário.

betboo 942 BBC Brasil - Como o senhor vê a tentativabetboo 942grupos pró-intervenção militarbetboo 942influenciar os rumos da greve?

betboo 942 Antunes - Pelo menos no Ocidente, os caminhoneiros são,betboo 942forma geral, uma categoria muito suscetível às influências mais conservadoras. É importante dizer que eles não são sempre conservadores - e, hoje, nós podemos dizer que a categoria é muito heterogênea.

O que se coloca agora é que certamente tem forças que acham: 'Não vamos esperar as eleiçõesbetboo 942outubro. Vamos buscar uma alternativa fora da ordem'. Não tenho dúvidabetboo 942que tem gente pensando nisso.

Por outro lado, é vital que haja também um movimentobetboo 942apoio à nossa Constituição e que impeça qualquer movimento - que seria uma tragédia e uma loucura - que representasse um 'golpebetboo 942direita' e que arrebentasse as conquistas democráticas que,betboo 942um modo oubetboo 942outro, nós conseguimos desde a Constituiçãobetboo 94288.